17 de nov de 2009

Crônicas do Lagarto Gordo.

Era uma quinta-feira, eu lembro, fazia calor. Estavámos eu e um colega almoçando ao ar livre e conversando sobre qualquer besteira. Eu, como um bom glutão, deliciava-me ao devorar meu xis, deixando as batatas-fritas pro final. Um sujeito meio estranho rondava o local. Não um mendigo propriamente dito, mas só de olhar tu via que ele não tomava banho há um bom tempo, mesmo que suas roupas não estivessem rasgadas ou sujas. ele ia pedindo algo de mesa em mesa, com um papel na mão. Eu ia acompanhando o camarada com o canto do olho, enquanto comia, vorazmente meu xis, refletindo o que estaria escrito naquele maldito papel.
De repente o severino vem na nossa mesa. Meu amigo fechou a cara no mesmo instante:
- Boa tarde. Desculpe estar atrapalhando o almoço de vocês. Mas eu estou totalmente sem dinheiro, e meu filho está no rodoviária. Pra provar que eu tô falando a verdade eu tenho esse papel comigo (nesse momento ele me passa o bendito documento). Sou cearense, e nós temos que ir embora daqui. Peço que contribuam comigo com qualquer coisa.
Li as primeiras linhas do documento, vi que não provava porra nenhuma, e devolvi ao indigente.
- Bah, cara... Eu tô sem nada aqui. Eu gastei tudo no almoço. - eu disse (na maioria das vezes que nós falamos isso é pq queremos nos livrar do mendigo, mas dessa vez era verdade)
- Pode ser qualquer coisa... Qualquer coisa mesmo. - ele disse isso olhando fixamente pro meu xis
Ah não, minha comida não. Nunca. Minha Coca-Cola estava no final, ofereci-a ao cidadão, ao que o mesmo, PEGANDO A LATA DE REFRI, responde:
- Mas eu tô com fome... Posso pegar uma pipoquinha ?
Pipoquinha ??? Que pipoquinha ? Da onde esse maluco tirou isso ? Nesse momento ele aproxima perigosamente a sua mão imunda do meu pacote de batata-frita. Não, não e não. Minhas preciosas batatas-fritas não. Resolvi dar uma de demente, enquanto empurrava o pacote pra mais longe:
- Que pipoca ?
- Essa pipoquinha, aí... Só uma pipoquinha ? Posso ? - Enquanto sua mão cheia de germes, micróbios, protozoários e afins ameaçava meu pacote novamente, como um urubu que voa em volta de um animal moribundo. Puxei o pacote pra mais longe, denovo, e disse:
- É batata, véi...
- Tá, me dá uma... - A mão denovo.
- Tá, então, calma- separei umas três ou quatro batatas num guarda-napo e dei ao indigente
Meu amigo, alheio a toda história olha pra mim e fala:
- Tu vai por céu, mas tu é idiota. Esse cara tinha que arder no mármore do inferno.
- Coitado do cara. Ele tava com fome, só não precisava inventar toda essa história pra eu dar as batatas pra ele.
Quando termino de falar isso, olho pro lado e vejo que o cara já tinha engolido todas as batatas e secado a lata de refri inteira. O INFELIZ NEM SENTIU O O GOSTO DO DOCE SORO NEGRO DO CAPITALISMO (vulga Coca-Cola), e ainda por cima jogou a lata no chão. Uma irritação me subiu a cabeça e falei alto pro meu amigo:
- ESSE CARA MERECIA ARDER NO MÁRMORE DO INFERNO !



***



Mais um dia nublado em Porto Alegre(aquela coisa de chove e não molha, muito comum aqui e em Seattle[podia ter uma cena de bandas grunges aqui também, e eu ser tipo um Eddie Vedder :P]), e eu estava acompanhando um colega meu até a parada de ônibus em frente a nossa faculdade. Eu ficaria na faculdade por mais um tempo por motivos de força maior (leia-se 'quero trovar a bixete'). Estávamos já quase na saída do local, quando um carro vem mais rápido que o normal ao meu encontro, e eu fico encarando a motorista, pensando se tinha alguma motivo pra ela dirigir tão rápido dentro da faculdade. Fiz um comentário besta, meu colega fez uma piada sem graça, e uma senhora que já não é muito nova, desata a gritar e chamar a atenção:
-AUUUUUUUUMMMMM, GURIIIIIISSS... QUE FEIOOOOO!!!
Eu já pensei com meus botões, "Essa véia vai querer me dar um sermão pq eu tava no meio da 'rua', dentro da faculdade, atrapalhando o 'trânsito ¬¬" . Então, dominando pelo meu lado housiano, virei pra ela com a cara mais mal-humorada e antipática que consegui fazer e perguntei:
-Que que houve ?
- AUUUUUUUUUUUMMMM, GURIIIIIISSS... QUE FEIOOO!!! [por um momento achei que ela era um robô que tinha sido programado para ter apenas uma fala] VOCÊS NÃO TEM VERGONHA, NÃO ?EU COM CINQUENTA ANOS, E VOCÊS ME SECANDO... TENHO IDADE PRA SER VÓ DE VOCÊS.
Nesse momento meu cérebro desligou totalmente, e pensava espassdamente: "Que ? Como assim ? Que que essa véia tá falando ? [curto circuito nos neurônios] Não tô entendo... Que que tá acontencendo ? Secando ? [morte celular de alguns neurônios] Será que eu tô são ? Tomei alguma droga alucinógena ? Ou foi a aula de Genética que me deixou assim, tendo alucinações?"
Retomei a consciência, virei pro meu colega e perguntei:
- Que diabos foi isso ?
Nisso chega o segurança da faculdade e pergunta:
- Que loucura é essa aí ?
Meu colega contou toda a história, e revendo os fatos, entendi tudo que tinha acontecido. O segurança chorava de tanto rir e dizia:
- Ou ele tem problemas ou ela deve se achar muito gostosa... É, de qualquer jeito ela tem sérios problemas
- Já vi tudo... Deu, podem fechar meu caixão. - eu disse




"I want to live my life with the volume full"
Pearl Jam - Supersonic

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